Tuesday, January 04, 2005

Hino à Alegria

Hino à Alegria – versão revista e adaptada ao novo milénio

Não seria tão bom que algumas pessoas simplesmente entrassem em combustão espontânea? E não, não estou a falar de nenhuma imagem assim cómica de uma pessoa a ficar com um braço envolto em chamas por se aproximar demasiado de uma vela ou do Kenny do South Park a acender um peido com um isqueiro e morrer. Estou mesmo a falar de regar pessoas com um bidão inteiro de gasolina e depois oferecer-me para lhes acender o cigarro.
E não seria igualmente brutal se, pelo menos uma vez na vida, pudéssemos concretizar todas aquelas coisas cruéis e deliciosamente imaginativas que imaginamos acontecer aos outros? Acreditem que iríamos ver muito mais bigornas a cair em cima das cabeças das pessoas.
Ou pagar a uma pessoa, é isso!, pagar a uma pessoa para seguir alguém de quem não gostemos durante todo o dia e, de vez em quando, nas alturas mais inesperadas e inconvenientes, saltar de trás de um arbusto, pregar-lhe com um tremendo calduço e fugir a correr aos saltinhos e gritinhos histéricos.
Também gostava de conseguir a lista de telefones do telemóvel daquela rapariga mesmo gira que, mais do que nos ignorar, riu-se de nós sequer pensarmos que tínhamos alguma hipótese, sacar-lhe o número de telefone de casa, esperar que o pai atendesse e dizer: “Tou, é da casa da Tonicha Maria?” “Sim, fala o pai dela” “Ok. Podia só perguntar à sua filha quanto lhe devo pelo bico de ontem à noite?”
Também acho que uma solução para muitos dos problemas que nós temos na nossa vida social seria a possibilidade de viajar no tempo. Muita gente imagina usos muito grandiosos para as viagens temporais (ver as pirâmides a ser construídas, viver na Grécia dos filósofos, espreitar para o futuro daqui a mil anos) mas eu não – o meu uso para as viagens no tempo seria muito mais egoísta. Eu gostava de poder viajar atrás um minuto no tempo sempre que eu quisesse. Era tão bom! Imaginem a situação: estamos a discutir com uma pessoa, e ela está-nos mesmo a irritar, e nós tentamos argumentar, mas ela não nos deixa falar, e nós dizemos que ela tem razão só para ela parar de nos chatear, mas ela persiste, e já não dá mais para aguentar... e vocês sacam duma caçadeira, rebentam-lhe com a cara e berram: O QUÊ? QUERES ALGUMA COISA?! O QUE É QUE DISSESTE?! QUERES DIZER ALGUMA COISA CARALHO?!!!!!! E depois voltam atrás um minuto no tempo e: "Desculpa? Estavas a dizer?"
Mas tenho estado aqui a falar só de coisas positivas e acho que chegou a altura de falar de algo que me chateia. Pronto, pronto, eu sei. Isto até agora tem sido tão positivo e mudar assim de assunto é um pouco anti-climático – e para além do mais isto é o “Hino à Alegria”. Mas tem de ser. Há coisas que têm de ser ditas. Há certas injustiças que têm de ser reclamadas – tais como não haver a possibilidade de implodir a cara do Pinto da Costa com um comando remoto.
Mas chega de suspense, vou-vos dizer aquilo que me aflige. Não falo aqui de uma mera trivialidade – falo de um dos maiores flagelos da sociedade contemporânea. A única raça da humanidade que alguma vez justificou a aplicação de uma “limpeza étnica” a nível global. Sim, senhores e senhoras, penso que já todos percebemos de quem estou a falar. Estou a falar, claro, dos mimos.
Eu ODEIO MIMOS! Meu Deus, como eu odeio mimos! Duas das minhas memórias cinéfilas favoritas: longa diatribe anti-mimos de Billy Cristal no filme "O Dia do Pai" – aconselho a todos que não percam esse momento divinal; e, acima de tudo, "Die Hard with a vengeance" – Bruce Willis guia um táxi pelo meio do Central Park com um Samuel L. Jackson apavorado ao seu lado. Este último pergunta: "Are you trying to hit these people?" ao que Willis responde "NO! Well... maybe that mime!"
A sério! Não consigo colocar bem em palavras o quanto eu detesto essa espécie de dejectos esquecidos do mundo das artes performativas de entretenimento. Bem, talvez assim: uma das minhas fantasias mais recorrentes é pegar num mimo qualquer da rua, partir-lhe os cotovelos de ambos os braços com um martelo e depois exclamar: “Vá! Oferece-me lá uma flor agora! Vá lá! Quero ver isso!”
Espero que não fiquem com uma ideia errada da minha personalidade. Eu acho que até sou um homem razoavelmente afável e amigo do seu amigo (diria mesmo que, não fosse o meu fetiche de fazer sexo com ovelhas com uma máscara de Veneza enquanto canto “porque o macaco gosta de banana, eu gosto de ti!” de José Cid, eu seria um modelo de perfeição civilizacional). E sou, acima de tudo, um pacifista. Mas o mimo transcende qualquer concepção moral ou ética. Ele é um absoluto. A irritação no seu estado mais puro. A todos os que compreendem e apoiam a minha luta não vos peço que me telefonem ou que façam qualquer contribuição monetária mas que dêem o primeiro passo para um mundo melhor. Se virem um mimo na rua empurrem-no, preguem-lhe uma rasteira. Se ele vos vier chatear, dêem-lhe um soco. Porque é nos pequenos gestos que começam as grandes mudanças. VIVA LA REVOLUCIÓN!!!

1 Comments:

Blogger PedroSilva said...

Loool. Adorei. A parte dos mimos está demais. tem umas descrições brutais. A joão se calhar também vai escrever para o livro, vou-lhe dar o blog tb.

January 4, 2005 at 11:33 AM

 

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