A Besta dos Portões
Era uma vez um reino encantado em que tudo era belo. O sol brilhava como se nunca deixasse de ser meio-dia e os cantos de mil pássaros tornavam todos os dias um concerto primaveril de paz e serenidade. Podia-se mesmo dizer que se tratava de um paraíso na terra... se exceptuarmos a caca de pássaro por todo o lado. É que sabem, o pombo também é um pássaro. Tal como um francês também é um terrestre – ninguém gosta, mas o que se há-de fazer?
Mas o reino encantado estava triste, e não só pela caca de pássaro. É que o Rei, normalmente um ancião bonacheirão e generoso para com os seus súbditos andava deprimido e reagia a essa depressão como qualquer um de nós reagiria – executando cerca de 10 súbditos por dia tanto por razões irrisórias como por delitos mais graves como porem maionese no hamburger depois de ele ter repetidamente pedido para não o fazerem. A única coisa que se mantinha como de costume eram as execuções sumárias de qualquer pessoa que se tornasse um mimo – tal como eu disse, isto era mesmo um paraíso! À excepção da caca de pombo.
As coisas pareciam ir de mal a pior no reino até que, num dia carregado de misticismo (ou de um cheiro sufocante a ratazanas podres – era o Dia Nacional da Feijoada e era difícil distinguir), chegou um cavaleiro todo de branco montado num cavalo imponente, também ele de uma alvura celestial que causava inveja aos anjos no céu. E o misterioso Cavaleiro Branco subiu as escadas do palácio e, num gesto imperioso, colocou as mãos sobre as ancas e preparou-se para revelar a todos a sua identidade e assegurar-lhes que as suas angústias seriam, em breve, apaziguadas. E foi então que um bando de mais de 20 pombos decidiu largar a sua versão bem pessoal da bomba de Hiroshima sobre a reluzente armadura do Cavaleiro Branco, destabilizando-o e fazendo-o cair, rebolando pelas escadas do palácio abaixo num trovão ensurdecedor de metal e granito.
E os camponeses, procurando manter, se não a sua nutrição, pelo menos a sua audição, decidiram que se calhar certas coisas é melhor permanecerem um mistério.
E o Cavaleiro Branco, desistindo de uma entrada gloriosa para optar por uma simples entrada, voltou a subir as escadas, com o escudo de aço platinado sobre a sua cabeça, e entrou nos salões do palácio, onde o esperava o Rei e a sua Rainha, ambos visivelmente desgostosos.
- Rei Asdrúbal – disse o Cavaleiro Branco, ajoelhando-se perante o trono do Rei – corre a notícia nas planícies abandonadas que o reino encantado está angustiado por uma qualquer ferida que não ousa contar. Venho oferecer a minha espada para qualquer que seja a missão que me queria incumbir. O meu único desejo é devolver a paz ao seu reino.
- O teu coração é generoso e a tua alma pura, Cavaleiro Branco, mas temo que não chegue para resolver o nosso problema. É que a nossa filha foi raptada… pela Besta dos Portões!
Ouviram-se suspiros horrorizados no salão do palácio, o que foi algo bizarro dado que não havia mais ninguém lá dentro.
- Você disse… a Besta dos Portões?
- Sim. A Besta dos Portões!
- Que raio é a Besta dos Portões? – exclamou o Cavaleiro Branco, olhando para a câmara e fazendo uma careta à Malucos do Riso, o que foi ainda mais bizarro dado que esta história se passava nos tempos medievais, onde não existiam câmaras e os Malucos do Riso eram ainda apenas um método de tortura utilizando pelos Mutantes Existencialistas do Vale das Ameixas Podres.
- Ó pobre infeliz, que te atiras para o perigo munido apenas de uma espada suja de excremento pombal e um sentido de humor de primata!
- Diz-me onde está essa Besta dos Portões, e eu a eliminarei e lhe devolverei a sua filha, pela honra da minha família! Aponte-me o caminho dos Portões e deixe-me cumprir o meu destino, que eu não tenho assim tanto medo de água!
- O quê?
- Eu não nado muito bem, mas for preciso luto no cais e se tudo correr bem sem sequer molho um dedo do pé.
- Cais? Qual cais?
- Então não tinha dito que a Besta estava nos Portões?
E o Rei ficou triste ao aperceber-se de que o salvador da sua filha era um atrasado mental.
- A Besta não está nos portos.
- Não? Então ond…
- Era óbvio – interrompeu, já exasperado, o Rei – que eu quando me referi a portões me referia a gigantescos cálices de vinho espirituoso fabricado na zona do Douro!
E o leitor ficou triste ao aperceber-se do nível de piadas cretinas que ainda ia ter de aturar até ao final do conto.
E aconteceu então algo de extraordinário: a Rainha, que ainda não havia proferido uma palavra desde a chegada do Cavaleiro Branco – o que não era de estranhar pois Hermenegilda Doroteia era conhecida como a Rainha Muda devido a nunca ninguém no reino a ter ouvido dizer o que quer que fosse (reza a lenda que as únicas palavras que alguma vez saíram dos seus lábios foram proferidas na noite da Imaculada Concepção da Princesa e tornaram-se um dos mais respeitados provérbios do reino – “Querido, não é bem aí…” – mas dizia eu, a Rainha levantou-se e começou a abrir a boca para dizer algo… Foi então que o seu estômago que revoltou, conteve um arroto e caiu redonda no chão. E assim morreu Dona Hermenegilda Doroteia, mãe da Princesa Desaparecida.
O Cavaleiro Branco propôs ajudar o Rei a tratar da Rainha mas este respondeu que não era tempo para festas e enviou-o na sua missão. E assim começou a viagem do Cavaleiro. Rumo aos Portões. Rumo à Besta…
Passados três dias de muito sol e ainda mais fezes ornitológicas, o Cavaleiro Branco chegou aos três enormes cálices que formavam o lar da Besta e, desembainhando a espada, penetrou na escuridão…
Foi então que viu, bem no centro do triângulo que os cálices formavam, uma bela jovem a cantar. O Cavaleiro aproximou-se, como que hipnotizado, e perguntou:
- É você, formosa mulher, a Princesa Desaparecida?
- Sim, sou eu, meu salvador! – exclamou a Princesa, lançando-se nos braços do seu amado, num beijo apaixonado e eterno…
- Princesa, não podemos perder tempo. Onde está a Besta dos Portões?
- Besta? Qual Besta? Isso é uma piadinha ao meu corpo?! Estás-me a chamar de gorda é?!! Como é que tens o desplante de me chamar gorda?!!! Ou essa Besta é outra que andas a comer nas minhas costas? Seu canalha!! Como é que podes fazer isto?! Vai-te embora, eu nem gosto de ti!!! Não! Fica!!! Vai!! Ai que não sei o que pensar!!!...
É que sabem meninos e meninas? Durante certos dias do mês, todas as mulheres passam por um processo… especial, em que o melhor a fazer é fechá-las numa masmorra e rezar pelo doce alívio da morte. Ora, passando-se esta história nos tempos medievais, tal comportamento não tinha ainda qualquer espécie de explicação científica, tendo o Rei Asdrúbal dado a esta outra personalidade da sua filha o nome de Besta dos Portões.
Tendo resolvido o incrivelmente complexo e nada idiota mistério da Besta dos Portões, o Cavaleiro Branco sentou a Princesa atrás de si no seu cavalo e começou a fazer contas ao que ia ter de hipotecar para pagar o casamento, enquanto a Princesa Reaparecida se queixava de eles já não terem conversas profundas como antes.
E viveram felizes para sempre.
E pergunta o leitor: “Felizes para sempre, como?” A resposta está na última frase do 23º parágrafo.
